A Síndrome dos ex-bbbs

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Recebi um sms convidando para o velório da fulana de tal. Na hora fiquei imóvel, em choque. Principalmente porque eu não lembrava da fulana de tal. Pelejei, pelejei, pelejei e não consegui lembrar. E agora, ela partiu dessa pra “melhor” e eu nem sei se gostava dela ou não, se era gorda ou magra, se era uma boa pessoa ou não. Simplesmente não me lembro dela. Mas tudo isso não importa mais, porque ela não está mais entre nós. E de alguma forma acho que nunca esteve.

Não sei se recebi esse sms por engano. Mas por que diabos meu número estaria gravado na agenda telefônica do celular dela? Ninguém salva o número da outra pessoa sem conhecê-la. E se ela me conhece, eu devo conhecê-la. Sinto como se tivesse que ir ao velório. Pelo menos pra dar uma olhadinha discreta no caixão e tirar a dúvida: “ahh, é fulana que sentava atrás de mim na aula de religião” ou “fiz um curso de informática com ela na Microlins”. Qualquer pista ou amigos-em-comum servia. Mas não, não consegui lembrar de nada.

De certa forma, esse sms me fez lembrar dos ex-bbbs. Sim, eu também tenho medo de minha contribuição aqui na terra ser pequena demais ou indiferente demais. Faça o teste: quem se lembra da Antonella, do Buba ou da Inês? Ninguém. Agora se perguntarem sobre o Alemão, o Dourado ou a Fani, a gente diz com facilidade se gostava ou detestava. Alguma coisa a gente lembra. Pior do que ser odiada é não ser lembrada. Se a gente não despertar algum sentimento, seja ele ódio, raiva, amor ou paz, a gente corre o risco de ser um pessoa café-com-leite.

E pessoas que nem-fedem-nem-cheiram são facilmente esquecidas. Simplesmente porque elas nem fedem. Nem cheiram. São indiferentes. Tem um trecho do livro A culpa é das estrelas em que perguntam para um garotinho com câncer qual é o seu maior medo. E ele responde: tenho medo de ser esquecido.

 (Texto dedicado à pessoa do sms que se foi, seja ela quem for)

Aí tem coisa

desconfiado-712x264Ultimamente tenho escrito pouco aqui. Isso porque, preciso de uma reflexão pra escrever. Mínima que seja. Sem reflexão, não sai texto. E pra reflexão vir, eu preciso estar triste/insatisfeita/ ou só-com-vontade-de-reclamar-mesmo. E isso não tem me acontecido ultimamente. Na verdade, minha vida está ótima.

Estou num relacionamento maduro e saudável com um cara ótimo, arranjei um emprego ótimo, com pessoas ótimas e minha vida financeira aos poucos vai ficando ótima. Teoricamente, eu não tenho nada pra reclamar. O problema é esse: tá tudo ótimo demais. E quando tudo vai bem demais, é porque alguma coisa vai acontecer. Posso sentir.

Não se pode tá ótima em todas as esferas da vida. Sempre sonhei em chegar aos trinta bem sucedida no trabalho e no amor. Emprego-dos-sonhos + um-amor-pra-toda-vida = felicidade eterna. Mas essas duas coisas nunca andaram em harmonia na minha vida. Por exemplo, se eu tava bem na carreira, geralmente tava saindo com algum carinha errado. Ou vice versa.

A verdade é que sempre tinha algo pra me queixar na mesa do bar. Meu chefe tá pegando no meu pé? O carinha que eu gosto sumiu feito fumaça depois de um final de semana mágico? Comprei iogurte vencido no supermercado? Lá tava eu, reclamando pras amigas (prazamiga não, por favor).

Mas de repente, eu não tenho mais nada a me queixar. De repente (e milagrosamente), tudo começa a ir bem na minha vida. Sou feliz no trabalho e no amor. E ainda por cima, tenho uma boa saúde. E tudo que eu consigo é tirar uma conclusão: aí tem coisa.

O almoço de domingo

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Poucas coisas na vida demoram tanto a sair como um almoço no domingo. É quase um trabalho de parto normal. Porque até uma cesárea é mais rápido. Não sei se minha mãe faz de propósito, ou se é só la em casa, mas juro como não entendo essa demora de almoço no domingo. E não é porque é o melhor almoço da minha vida feito com todo amor e esmero pela minha mãe. É carne com batatas. Esse mesmo prato demoraria bem menos se fosse ao sábado. Mas como é no domingo a coisa muda. Almoço de domingo demora tanto pra ficar pronto que parece obra da prefeitura.
 
Aqui em casa, por exemplo, o almoço de domingo demora tanto que só fica pronto na segunda. E quanto mais eu visito a cozinha, pacientemente, de cinco em cinco minutos, fica pior:
 
12h30:
 
-Vai demorar muito mãe?
-Come uma fruta que passa.
 
Duas maçãs depois..
14h30:
 
-Vai demorar muito mãe?
-Come uma fruta que passa.
 
 
Foi num desses domingos que eu fiz uma grande descoberta: FRUTA NÃO PASSA FOME. Nem sequer engana a pobi da fome. A maçã principalmente. Ô frutinha traiçoeira. Agora eu entendo porque ela é o fruto proibido. Devia ser proibida principalmente aos domingos. Quanto mais você come mais você sente fome. Tanto que o slogan da maçã devia ser: “Maçã. Só coma se tiver acabado de comer. ” Ou: “Só pão passa a fome”. Não se engane. A digestão da maçã é tão rápida que em vez de ser de 3h em 3h horas, é de três em três minutos.
 
E lá pelas tantas horas do dia, minha mãe solta um grito:
 
-“tá na mesa”.
 
Nasceu. Finalmente, nasceu o almoço-janta de domingo. Eu levanto meu corpo fraco e desnutrido e me arrasto para cozinha para fazer minha única refeição de domingo. Pode não ser a mais gostosa, mas sem dúvidas, é a mais esperada. Depois de três-pratos-de-trigo-para-três-tigres-tristes, pergunto a minha mãe:
 
-Tem sobremesa?
-Tem maçã, pêra, ameixa, abacaxi..
 
E ainda me perguntam se eu gosto dos domingos..

Lulu: que nota esse app merece?

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De ontem pra hoje só se falava num tal de aplicativo chamado Lulu. Como o nome já diz, lulu de Clube da Luluzinha. Só para mulheres. O aplicativo permite as mulheres avaliarem os carinhas do seu facebook que já pegaram e compartilharem com o resto do mundo. Eu, como publicitária-mente-aberta-adequa-a-coisas-novas-e-modernas que sou, ou simplesmente curiosa, baixei o aplicativo.

Você avalia o carinha por hashtags boas, do tipo: #BebeSemcair, #PagaAconta, #AcreditanoAmor,  #LembraoAniversário, #Caideboca, #FazrirAtéchorar, #BarbaporFazer. E pelas ruins, como: #CurteRomeroBritto, #PrefereoVideogame, #MaisbaratoQuePãonaChapa, #SóUsaAbadá, #NãosabeApertarUmparafuso, #NãoFazNemcócegas, #TocaVuvuzela (??). A partir desses comentários, forma-se uma combinação secreta de fatores que produzem notas de 1 a 10. E o mais importante, tudo anônimo.

Eu não sei bem aonde esse Lulu quer chegar, mas já ouvi boatos de que vai ter a versão masculina, onde as mulheres que vão ser avaliadas. E já tenho amigas desativando a conta do facebook com medo de serem rotuladas. Não sei se esse Lulu é uma espécie de vingança pessoal, onde as mulheres querem se igualar aos homens, mas no que eles têm de pior. Lutamos tanto para não sermos tratadas como objetos e agora estamos fazendo o que se não julgando os homens como objetos numa espécie de cardápio online? Quer um surfista que liga no dia seguinte? Tem. Quer um nerd com o carro do ano? Tem também.

Outras dizem que o aplicativo serve como referência para outras mulheres antes de começarem a paquera. Porque hoje em dia é preciso testar todos os tipos de referências, mesmo que anônimas, para que então-algum-dia-quem-sabe-eventualmente-se-deus-permitir-e-os-planetas-tiverem-alinhados iniciar algum tipo de contato com a pessoa. Como se a opinião de “alguém” fosse crivo para você entrar ou não num relacionamento.

Quer saber se o cara é fofo, romântico, “tipo família”, toca vuvuzela (??) ou é bem dotado? Saia com ele. Não se conhece a personalidade de alguém por um aplicativo anônimo. Se conhece conversando na mesa do bar, pela música que toca no carro dele, pelo jeito que ele te trata ou trata o garçom, se é fã do Caetano ou torce Flamengo. Tanto os homens como nós mulheres somos prejudicados por generalizações. E esquecemos que quem tem rótulo é margarina.

Frankly, my dear…

Conversando com uma amiga que queria reconquistar um carinha por quem ainda era apaixonada, ela me disse:

“Ele vai ver só, vou entrar na academia, pintar o cabelo de loiro e ficar bronzeada. E ele vai se arrepender de ter terminado comigo.”

Como nós mulheres somos bestas, pensei. Ninguém termina com a outra pessoa porque ela é morena, não pega sol ou está com uns quilinhos a mais. Gosta-se e desapaixona-se por outros motivos. Gosta-se pelo jeito, pelo cheiro, pelo que a pessoa provoca em você, por empatia mesmo. Não é porque você vai ficar magra, loira e bronzeada que ele vai voltar pra você arrependido. Provavelmente a paixão acabou mesmo e não tem mais o que fazer. Mas claro que eu não disse isso para uma amiga na fossa pós-término de namoro, precisando aumentar sua autoestima. Falei:

– Isso aí amiga, ele não te merece.

Nada do que eu falasse ia adiantar naquele momento. Ela precisava recuperar sua autoestima que um babaca lhe tirou. Precisava sentir-se bem com ela mesma. Nem que seja ficando “magra, bonita e bronzeada”, definição de mulher feliz para nós, mulheres.

Mas os homens também têm disso. De outra maneira, mas têm. Quando as mulheres precisam aumentar sua autoestima, elas vão ao salão de beleza. Já os homens, vão à concessionárias. Cada um faz do seu jeito para sentir-se bem. É bobagem, mas acontece o tempo todo. E tudo isso por causa de alguém. Sempre tem alguém. No caso deles pra pegar alguém, no caso delas para ter alguém de volta. A verdade é que uma mulher vai até o seu limite para reconquistar quem ela gosta. Muda o cabelo, bota silicone, se alimenta de alface, gasta todas as suas economias num vestido tubinho preto dois números menores que seu tamanho, mas que com 2h de esteira diária, tem fé que vai entrar.

E tudo isso provavelmente não vai funcionar. Provavelmente ele nem sequer vai reparar no quanto você ficou mais bonita depois que vocês terminaram. Mas pode acontecer de você conhecer outro carinha. E aí, meu amigo, quando uma mulher já superou, não tem Camaro amarelo que dê jeito.

(Texto dedicado à todas as mulheres que já superaram alguém e que não são magras, loiras ou bronzeadas).

http://www.youtube.com/watch?v=By_n6QnSb4s&hd=1

Like a virgin

cupido
Namorar é difícil. Tão difícil que eu só tive um relacionamento longo em toda minha vida. E foi em 2006. Depois disso, sai com alguns carinhas, mas nunca sério. E quando as coisas começavam a ficar mais sérias, eu logo dava um jeito de estragar. Eu era mestre, especialista e phd em estragar as coisas. E quase sempre de uma maneira infantil, inconsequente e imatura.

E numa dessas aventuras, conheci um cara ótimo e começamos a namorar. Depois de anos, finalmente posso dizer que estou num relacionamento sério e saudável. Estava tudo mágico. Até eu começar a ver problema onde não tem. É como eu disse no começo: namorar é difícil. Requer felexibilidade, auto-conhecimento e maturidade. Tudo que eu não tenho. Sou teimosa, egoísta e não cedo nem a pau. Vivo no meu próprio mundo e só faço as coisas pensando em agradar a única pessoa que nele habita: no caso, eu mesma. Mas eu tenho ótimas qualidades, juro.

Dessa vez eu prometi a mim mesma que eu não vou estragar as coisas. Como eu disse, o cara é realmente ótimo e tudo finalmente começa a ir bem na minha vida (no caso na vida amorosa, na profissional é outra história). Se existisse uma fórmula de como manter um relacionamento sério e saudável funcionando seria bem mais fácil. Mas quem gosta do mais fácil?

Acho que a graça está exatamente em não saber. Não saber como ele gosta dos ovos no café da manhã, se ele é pontual, católico, se tem algum vício, pra que lado dorme, se seus pais vão gostar dele ou se você vai passar no teste dos amigos dele. A graça está em descobrir, se conhecer aos pouquinhos. Em ser virgem de tudo isso denovo.

Chá de formiga

relogioEu, como boa brasileira que sou, sofro da Síndrome do Último Minuto. Comigo as coisas só funcionam na véspera. Se eu tiver um prazo de trinta dias pra fazer, vou fazer nos quarenta e cinco minutos do vigésimo nono dia. Claro que só quem perde com isso sou eu. Que acabo pagando às vezes o triplo do preço do ingresso por não ter comprado antecipado.

Antecipado. Essa palavra não existe no meu dicionário. Embasso existe. Sim, sou a Rainha do Embasso. Tem uns que são rei do camarote, eu sou do embasso. Agora mesmo era pra eu está escrevendo um texto (que não é esse), e estou escrevendo esse (que não é o que eu devia está escrevendo).

Hoje eu enrolei tanto pra começar que só café da manhã eu tomei três vezes. Chequei o Instagram umas trinta. Organizei meus livros por ordem alfabética. Desisti e organizei por cores. Abri a geladeira, pensei na vida… chega! Agora vou me concentrar. E de repente, até acompanhar uma formiga na parede fica mais interessante. Aliás, admiro muito as formigas e sua lição admirável de cooperação. Elas tem um poder de comunicação e de trabalho em equipe que deviam ser invejáveis por toda e qualquer empresa. E olha que elas nem possuem wifi no formigueiro ou tablets. Simplesmente se comunicam pelo cheiro. Se tivesse uma receita pra aumentar o poder de concentração, com certeza levaria formiga. Além de fazer bem pra vista. Mas chega de falar das formigas. Isso se aplica aos cupins também.

Como ainda não existe um chá de formiga, acho que o melhor remédio é sentar a bunda na cadeira e escrever, correndo contra os prazos. Acho que funciono melhor quando as coisas são “pra ontem” e não pra depois de amanhã. Afinal, já dizia o sábio compadre Washington “elas gostam é de pressão”.